Artigo de Elaine Favero - Sobre a prática do autoconhecimento

Notas sobre a prática do autoconhecimento

Estudar faz parte da minha rotina de trabalho. No decorrer deste tempo que dedico a leituras e discussões e entendimentos, fica cada dia mais clara a preciosidade dos “artigos” que todos nós escondemos dentro de nossa própria existência. Esse estudo fascinante sobre diversos temas que abrangem o comportamento humano nos mostra cada dia mais como somos parecidos em respostas emocionais, mas como seus motivadores tem gatilhos infinitamente diversos.

No meio disso tudo, veio uma vontade de escrever um pouco sobre este tesouro que encontramos (e a qual todos temos acesso com um pouco de paciência e esforço): o autoconhecimento. Como se autoconhecer pode melhorar nossa rotina, nossa tomada de decisões e, por consequência, aumentar nossa qualidade de vida. Um lapidar-se, um ajuste fino. Um ganho de perspectiva e de consciência. 

Sempre ouço das pessoas com quem convivo que estão cansadas e sem tempo. Se queixam por não conseguir praticar exercício físico, se manter numa dieta, seguir um curso, programar com calma uma viagem, sair com os amigos ou ficar de pernas pro ar..!

Quando rola um desabafo desses, sobram conselhos, palpites, recomendações de leitura. Podem chegar a ser excelentes dicas, mas o conhecimento que se adquire nessas interações não vale de muita coisa, se não for praticado.

Saber fazer algo e fazer algo são duas coisas absolutamente opostas. Isto serve apenas para alertar que, para quem se interessa em se utilizar do autoconhecimento para ter uma vida mais coerente, não basta ler ou ouvir sobre o assunto, é preciso praticar. E muito.

P.D. Ouspensky, filósofo e psicólogo russo, em seu livro “Psicologia da evolução possível ao homem”, consegue dimensionar de uma forma ilustrativa a importância de se colocar a teoria na prática, pois só assim saberemos de fato qual é o nosso “tamanho”:

“O desenvolvimento não pode se basear na mentira a si mesmo, nem no enganar-se a si mesmo. O homem deve saber o que é seu e o que não é seu. Deve dar-se conta de que não possui [todas] as qualidades que se atribui: a capacidade de fazer, a individualidade ou a unidade (...). E é necessário que o homem saiba disso, pois enquanto imaginar possuir certas qualidades, não fará os esforços necessários para adquiri-las, da mesma maneira que um homem não comprará objetos preciosos, nem estará disposto a pagar um preço elevado por eles, se acreditar que já os possui”.

Então, o que fazer para descobrir nossa real capacidade, qual nosso “tamanho”?

Praticar o autoconhecimento. É pararmos para refletir sobre: quais são meus limites? O que realmente importa para mim? Do que tenho medo? O que me trava? O que me motiva? Quais aprendizados tive ao longo da vida? Quais situações continuam se repetindo? Etc, etc etc.

Ao responder essas perguntas, por meio da auto-observação do nosso comportamento, reações e escolhas, estamos praticando o autoconhecimento. O exercício se propõe a trazer paz ao nosso cotidiano, no sentido de tomarmos decisões de forma consciente e equilibrada. Isso quer dizer não atropelar emoções, entendermos nossas contradições, não nos comprometermos por impulso, e/ou com metas que não sabemos se damos conta de honrar.

Significa estabelecer um ritmo que caia bem no compasso de nossas vidas. E essas respostas só podem vir de cada um, de uma conversa íntima com o nosso “eu”, a nossa história. Percebem a importância da prática? Sem ela, não teremos as nossas respostas, só as dos outros.

E o problema de tomar para si as respostas dos outros, é que isso pode ser muito frustrante, para não dizer ineficiente. Sabem, cada um é um, não importa o quanto nos misturamos. O que te incomoda, o que te transforma, o que te complica – é teu e de mais ninguém. Só você pode saber do quanto é capaz, o que te faz feliz, onde quer investir teu potencial de vida. Costumamos viver, sem nem notar, tentando satisfazer as expectativas que os outros tem de nós. 

Leandro Karnal, historiador e filósofo ilustra bem esse tema em uma palestra. Como exemplo da importância de estarmos cientes das nossas peculiaridades, ele conta que gosta de acordar cedo, às 4h da manhã todos os dias. E que por isso, nunca daria conta de ser porteiro noturno. ;) Uma metáfora simples que pode ser aplicada nas mais diferentes situações.

A prática do autoconhecimento nos dá respostas para entendermos e criarmos nosso caminho de felicidade, leveza e conquista. Preenche lacunas existentes em questões que aparentam ser subjetivas e, por isso, de complexa assertividade. Nos autoconstruímos enquanto percorremos esta estrada, pois ao conhecer as curvas e obstáculos, entendemos onde precisamos fazer desvios e construir pontes para chegar ao nosso objetivo.

Lan <3

 

Quem mais fala sobre isso?

Leandro Karnal -  https://www.youtube.com/watch?v=LRBYmsuyFYI

Zygmunt Bauman - https://www.youtube.com/watch?v=5KcNjS5OHyc

Robert Steven Kaplan - http://exame.abril.com.br/carreira/pare-de-se-enganar/